Tristan

Neste encontram-se breves histórias, algumas sobre Tristan, um personagem assim... e também outras histórias... quem tiver o interesse, divirta-se, deleite-se.

22 Novembro 2011

Momento Eterno

Po ouvi essa poesia musicada do Yan Lemos, pensei nela como uma bela tempestade.




Perdi-me ao som do rompimento
aos olhos do fiél
fui claro e sempre taciturno
porém amei você
que isola o sentimento em falta
em sonho irreal
cresci mil anos em dez dias
tão cinzas quanto as sobras de meu som


Estranho é constatar o óbvio
lógica banal
me dá conforto e calafrios
sentir a solidão
o corpo enxarca-se de métricas
homéricas e vis
queria só mais um momento eterno com você


Desistir jamais
persistir, quem sabe?
o vento que me traz
é mesmo que me sopra
pra longe dos seus ais
pra longe deste inverno
no céu não vou entrar
a rua é o destino dos que amam e se fodem no final


um verso em pleno ar
que emana sinais de dor
eu busco saber driblar
e de frente pro sol conseguir sonhar


Até amanhã, entre depois de amanhã
busca razões e desmonta o cerco envolto num só deus
brilha entre o raso e o deserto
palpiteia o desespero e invade a pretensão


ontem eu me olhei no espelho
fiz perguntas sem respostas
respondia meu reflexo como um prego denso
me rotulam um tanto profano, 
obscuro e tenso penso 
sem me acreditar assim, 
calado assim 
esperando por um golpe seu
que está em meu lugar tendo tudo pra mudar


Penso em longos prantos filosóficos e doentios
faço parte em fazer questão
veneno, caos e confusão mental
o bem e o mal
nota mental
fragmentos de 'viva a cidade' boiam ao relento
e minto para o semelhante
eu nego o cigarro
que afunda o negro em meu pulmão
da sarjeta pra canção
que escrevi do coração


Sensação de deserto
um silêncio tentador
como um deus adormecido
pelas horas do amanhã


Yan Lemos



18 Outubro 2009

O Bêbado e as Pernas



Errara a mira. Limpou seu vômito na porcelana. A bebida que outrora o fez alegre e manso agora fazia mal e o enjoava. Tomado pelo atordoamento pensou em por o dedo na goela e se desalmar por um breve instante. Quisera a alma fugir daquele corpo sôfrego e bêbado. Os pés e as pernas respingados da alma saída e mal mirada lhe envergonhavam. Mas que tinha a maldita sociedade com isso? Perguntas sem respostas coesas eram seu forte.
Os fortes agüentariam até o amanhecer. Mas e ele que não era forte? No seu mundo ciranda, caído na cama pensava nas calças vomitadas jogadas na lavanderia, em quantas palavras a menos poderia usar se achasse as palavras certas e nas moças com pernas exuberantes pelas quais passara um pouco antes de se desalmar. Mas que era ele? Perdedor até pra beber? Até assim, pra isso seria fraco? Tinha algo nos seus pensamentos que o preenchiam. Nem seus vícios mais cretinos arcavam com o ardor do sentimento pulsando nas veias e querendo ser sentido, explorado.
No fim das contas, desalmado e sentido, permaneceu na cama naquele domingo, sonhou com as pernas exuberantes que vira e falava pouco, pois tinha sempre as palavras certas.

01 Junho 2009


Fazia frio. Meus dedos congelados queriam, junto com meu doido cérebro, que eu fosse até o posto comprar cigarro, talvez eu me adiante na história e vá e volte para contar desse frio que me deixa aflito, mas independente disso, curioso eu fui me buscar. Tremendo como um cão perdido na rua olhei para os lados e nem um bastãozinho...vício desgraçado. E o que seria de nós sem vícios? Bem, vocês eu não sei, mas eu... A humanidade fica criando essas coisas pra gente ficar se entretendo e depois vira escravo. Eu não sabia exatamente o que era, vontade de fumar ou de sair. Ou de ficar. Ou arrastar os móveis. Quem sabe ler um livro. Desgraça de espírito inquieto, coisa mais sem paz eu sou. Deus do céu!!! Ajuda-me a fugir de mim, se eu me pego o estrago vai ser grande. Ninguém ligou e eu fiquei, naquele frio mórbido, sabendo que mais cedo ou mais tarde teria que sair, e fumar, e beber, e mais algo fora do meu discernimento. Tinha tudo pra mim, menos paz, e onde vive essa louca dessa paz que eu não encontro nem nos olhos de ninguém, nem dentro nem fora de mim? Mas acho que é porque vivo em guerra. Eu e essa minha cabeça avoada e cheia de merda. Pensando sem parar pra pensar, peidando pensamentos fétidos e inférteis num blog qualquer por aí. Puta merda, e cada vez fico mais pessoal porque nem fugir eu posso. E a tal da paz? Ainda tento procurar uma idéia que dê paz, uma música, um livro, um cigarro, um vício, ou não seria a paz uma idéia...

Hoje, acordei mais confuso do que nunca, fui bem cedo fazer o que precisava fazer, o frio me deu dor de cabeça, a tarde foi inútil, paguei uma conta e voltei pra casa, fazia frio, eu dormi, acordei confuso ainda. Tenho a vil ilusão de que o sono cura. Mentira porca minha, cura quem tem como ser curardo. Mas e a porcaria da dor universal? E a confusão que me acorda e me enlaça todas as manhãs? E a porra da guerra dentro de mim? Tem cura? Tem um remédio? Os melhores psiquiatras diriam que sim. Eles também são seres humanos em guerra, só não admitem não ter controle. Pra que controle? Vou comprar o cigarro. Deus do céu, eu só precisava sair...

08 Setembro 2008

O Gentil Joca

Eu fiquei toda aquela tarde me remoendo por dentro, com aquela mãe das angustias... Era chato falar da dor, é vergonhoso sofrer porque o mundo é uma merda, nessa horas, eu, digníssimo Tristan, gostaria de mudar o mundo, porém todas as pessoas têm vergonha de si, e supostamente de mim. Eu, que não tenho vergonha de chorar, não tenho medo de andar sozinho à noite, nem de me destruir todinho pra me refazer todas as manhãs... bebi. Sóbreo é difícil se convencer e sofrer.
- Ó fiel escudeiro!
- Ó maldito e triste Tristão!!!
Claro que o encontraria no Milk's, onde mais encontraria meu caro e bêbado amigo? Posto que o Joca se encontrava lá desde às dez e meia da manhã, e posto que ele ficava profundamente triste nos domingos, já estava completamente cozido, cozidinho.
- Estou com a mãe das angustias... não sei se bebo mais ou se faço uma revolução, o problema é que nós estranhos não somos levados a sério, você já sofreu porque o mundo é mundo?
- Todos os dias, eu trabalho de segunda a sábado, sou contratado e mal pago... você acha que eu não sofro porque o mundo é mundo? Além de tudo sou feio e porco, ah! E pobre.
Vejo que o ser humano é estranho, e que eu sou até que bem normal. Eu desejo ar puro, bicicleta, comida fresca, pessoas rindo, elefantes com seus marfins, os malditos "colarinhos brancos" a sete palmos do chão e por aí, a maioria dos meus desejos são baratos... os do joca também eu acho, e os do Tuca Borna (excelentíssimo senhor do Milk's bar) é uma mesa de carteado, daquelas bem bonitas, com pano verde.
- O que você deseja?
- Imediatamente?
- Pode ser...
- A morte...mas acho que ela não me escuta, e suicídio parece um ato muito paradoxal pra um rato.
- Joca, você realmente me impressiona com as suas observações. Mas e não imediatamente?
- Que a ressaca seja branda...
Fiquei com o Joca mais um tempo no Milk's, é satisfatório ficar com alguém gentil, não muito esperançoso, mas gentil. Umas das coisas que mais me fazia amigo do Joca. Fui embora apressado com se alguma insatisfação me pedisse pressa. Eu já não sentia mais muito amor por nada. Ao meu redor o que tinha era hostilidade e algo que me incomodava, quase que o tempo todo, e uma vontade de largar tudo. Deixar tudo pra trás, como se até então nada tivesse valido a pena. Como se todos os que eu queria que me ouvissem me podassem. Como se eu só falasse merda e como se a minha angustia e inconformismo não fisesse sentido. Fiquei pensando se meu fiel escudeiro não era uma pessoa que só eu via, se eu não era esquizofrênico ou qualquer outra coisa assim... alguém tão gentil não podia existir...e não existia. Eu só precisava encontrar alguém que soubesse ou quisesse ouvir, alguém que gostasse do Tristan como ele é, realista, angustiado, utópico com relação a humanidade, auto destrutivo, desesperado, alguém que me quisesse com todos os meus defeitos... e com as minhas quase nenhumas qualidades. Alguém que não tivesse vergonha de quem chora, sangra, sonha, sente. Alguém que não tivesse vergonha de um ser humano. Andei bastante pela rua e já era madrugada. E como era fria a madrugada. E eu não vi ninguém na rua com olhar compassivo. Quase nem vi ninguém na rua... as pessoas vivem o medo e só o medo, todos os dias. E noites também.
Precisava aprender o que era me bastar novamente. Sem esperar que alguém me entendesse ou sem esperar muito de alguém. Voltei ao Milk's, o Joca ainda estava lá, e todos estavam vendo o gentil e bêbado Joca na mesa.
- Sabe, andei procurando alguém bem legal por aí... que fosse bem gentil e achei que você não existia...
- Você pode ser esquisito, o humano mais esquisito e ... esquisito que eu conheço, mas você não é esquizofrênico. O fato de eu ser pobre, feio, sujo e gentil não me tira o mérito estranho da existência. E como vão seus joelhos?
- Melhores... melhores do que eu.
- Não se procura alguém que entenda... tem é que procurar entender que ninguém entende, e que solidão é companheira, mais do eu ou você. E a perda é a vitoria zelosa de quem sabe não querer nada e por isso tem tudo aos seus pés, que as pessoas quase que não têm esperanças nem acreditam nas outras. E assim se entende que os dia são todos com começos e fins, e cada manhã é diferente, é só olharmos com olhos de quem nunca viu o sol raiar, mesmo que entre as nuvens cinzentas. Isso meu caro Tritão, pode ser filosofia de bar, mas pra um coração partido e uma alminha engraçada, porém desacretitada, serve.
Eu não sabia como ele sabia... mas foi muito gentil da sua parte...

29 Fevereiro 2008

O Digníssimo "João"


O Digníssimo “João”

Aqueles lábios carnudos. Eu sem saber o que dizer.

- E então, como você está?

- Acho muita gentileza sua perguntar... não sei se convém responder.

Não havia nada pra responder, eu não sabia como eu estava. Eu não sabia quem eu era, algumas coisas pegam a gente pelo pé e tudo começa a ruir. As paredes da minha casa estavam pintadas agora e o ambiente parecia alegre fora o dono mórbido ali dentro.

- Tudo bem, eu entendi que você não quer responder. Eu só passei pegar minhas coisas.

- Leve-as... são suas mesmo.

- Você não vai mudar nunca não é?

- É, Tristan o bravio será sempre o mesmo.

- Então acho que você sabe porque eu estou indo embora.

Acendi o cigarro mais gostoso da minha vida. Eu sabia, não entendia mas sabia. Preferia que ela fosse, afinal de contas nem morava aqui.

- Você nunca ficou de verdade, não tem como ir embora de verdade, ta indo embora de mim, não da minha casa. Da minha casa só eu posso ir embora.

- Não vou tentar mudar o seu pensamento.

- Nem poderia.

- Nem indo embora pra sempre?

- Nem.

Nem ficando, nem indo, nem voltando. Nem nada, as pessoas se fazem descartáveis porque querem. As coisas são completamente diferentes do que a gente vê nas novelas (pra quem vê novelas).

- Tristan, se você quiser que eu fique é só falar, sabe? Eu queria, mas você....

- “Mas você...” eu já ouvi essa coisa de “mas você...” muitas vezes e confesso que dói uns dias e depois é mais nada, as coisas viram pó, eu não sou dramático, você quem ta indo. Eu é que vou ficar aqui, sozinho, mais um pouco, dividindo minhas coisas comigo, conversando com o espelho, inventando minhas histórias e acreditando que algo vai acontecer. Mas você não está inclusa em nada disso.

Ela começou a chorar e eu não queria drama. Eu odeio drama, eu escrevo pra não precisar viver nenhum drama. Escreve-se pra quem precisa de um drama.

- Hei! O negócio é o seguinte! Essa porra desse livro é meu, ninguém tira esse livro daqui!

- Como seu, o livro da capa amarela é meu!

- Olha, você não é, não foi nem nunca será o tipo de pessoa que lê o digníssimo João Guimarães Rosa, então por obséquio Marina, deixa o João aí! O tal do teu livro de capa amarela é aquela edição horrorosa de sei lá quem que eu nunca li e não quero nem saber de quem é, sei que não é nenhum dos meus fiéis companheiros de madrugada! Ah, e por obséquio, não esqueça nenhum Harry Potter aqui, seria humilhante se alguém aparecesse e visse essa coisa na minha estante! E aquele cdzinho também, aliás acho que você tardou em sair, só agora eu comecei a me dar conta da involução cultural que estava querendo dominar minha casa.

- O que? Você é muito petulante Tristan! E além do mais você me disse que ia emprestar o seu precioso “João”.

- Pois eu devia estar bêbado, o digníssimo João não é para plebeus literários como você. Você nem entenderia, se eu ás vezes leio mais de uma vez pra entender você passaria pelo menos três vidas só no prefácio.

- Eu vou levar sim.

- Nem fo-den-do! E esse nem fodendo é muito claro, nem fodendo mesmo! A não ser que você fique e leia. Depois você pode ir embora e dizer por ai que levou algo de bom dessa coisa toda que a gente teve.

- Essa RE-LA-ÇÃO!!!

Eu não entendo bem essa coisa de relação, sei lá, tem amigos, tem família, mas e as loucas? Onde ficam essas loucas da vida da gente? Eu ponho tudo numa caixa e acho que eu tive amizade com algumas, sexo com outras e com a Marina não era uma relação, nem bem amizade, nem bem sexo. Não era nada definido e por isso eu me incomodava dela ir embora de mim. Só não me incomodava com os malditos Harry Potter, o cdzinho do The Donnas e as malditas calcinhas que ela deixava molhadas sobre as minhas cuecas molhadas. A única pessoa com direito a porquisse na minha casa era eu.

- Não tem relação nenhuma aqui minha filha. A coisa toda é que a gente se da bem, sai junto, dorme junto ás vezes e você não é compatível com os meus pensamentos.

- Tristan, você não é uma pessoa muito clara. E além de tudo você ta mais sujo que pau de galinheiro comigo, você me chamou de burra, ignorante e nega a nossa relação!

- Eu não falei nada disso, você que veio com a história da relação e eu não vou discutir sobre o seu maldito mau gosto. Agora, se você pudesse se retirar e levar as evidências do seu mau gosto daqui, eu agradeceria.

- Mas e o “João”?

- Eu não vou emprestar, ou você lê aqui ou morre na ignorância.

- Ta. Mas depois eu vou embora.

- Sei. Você viu que eu pintei as paredes?

- Huhum, ficaram legais, bem alegres, amarelas, rodapés roxos, só você que não combina com elas.

- Mas combinam com você... cê não acha?

09 Janeiro 2008

O pianista


Eram memórias muito claras... eu o sentia no piano. Aquela sala vazia, a Balade No. 1 de Chopin. Eu estava na janela olhando pra rua. A fumaça ia se misturando. Cada nota, cada tecla. Ele tocava sempre como se fosse a primeira e a última vez. Olhava e não podia chegar perto. Um sonho em que não se pode tocar nada. Sente-se. Vez em quanto eu olhava. As costas e a mão indo e vindo em um bocado de oitavas. Correndo em um bocado de oitavas. E de repente alegre. De repente triste, violento, calmo e ás vezes nada. O que podia não ser, o que podia ter sido. Os velhos e confusos pensamentos e eu sem poder chegar perto, a música cada vez mais rápida, cheia de uma expressão rompante e magnífica. Cada tecla. Eu acordava sem pensar no que era vivo mas na vida que tinha. No sentimento que tinha. Natural. Sentir é natural. Sentir tão longe. Tanto tempo. O tempo nem é tempo. Eu mentia o tempo pra poder chegar mais perto. O sonho ia se desfazendo com o tempo, a fumaça, e uma coisa sem nenhuma dor, só um pouco. O que podia ser. Um tempo tão triste que podia ser. E tão triste que foi. Um sol enorme lá fora e eu sonhando na janela. Cada tecla um tempo. Cada dois tempos e eu me perdia de novo. Como se pudesse tocar. Queria chegar perto. Ouvir mais de perto, sem me perder desta vez. Sem perder nada. Não deixar ir.

Cada nota que ele tocava era em mim e cada tempo era meu. Dancei na sala vazia, olhos fechados e uma sensação de ser música. O seu rosto não me sorria. Olhava apenas. Olhava ás vezes. Eu não podia falar. Nem tocar. Ele estava ali e muito distante. Acho que também não podia falar. E não nos falamos, não nos tocamos. Fomos tocados. Quando se é tocado pelo tempo as coisas desaparecem. Não há o que falar. A cada tecla um tempo, cada tempo uma nota, dança-se num compasso, noutro, depois... sente-se, dói-se. Depois, adormece.

No Almoço

Eu estava lá, sentado, esperando alguma coisa acontecer. Havia duas horas que eu estava lá sentado esperando algo acontecer e o Joca me ligou.
- Alô.
- Ó Tristan!! Salve salve ser humano!! Como vai? Vamos beber hoje?
- Não.
- Como não? Aposto minhas calças que você estava aí, sentado no seu sofazinho florido olhando pra porta esperando algo acontecer.
- Eu devo ser muito previsível então.
- Claro que é, só foi imprevisível ao negar meu convite... ou não...você sempre nega primeiro e depois muda de idéia. Combinado então!! No Milk’s ás sete e alguma coisa.
- Você não quer almoçar comigo?
- Tristan, você é o cara mais carente no almoço que eu já vi...
O Joca desligou o telefone sem nem saber se eu havia concordado ou não, o que era típico dele posto que no fim das contas eu sempre ia e também não aceitou meu convite pra almoçar. É simplesmente horrível almoçar sozinho. Posso ficar só o dia todo...mas no almoço, é muito cruel.
Eu fui tomar um banho, tirar o cheiro de cerveja da minha cara pra poder renová-lo. Optei por não almoçar... sozinho não. Fui no “Hong”. O Hong, que era um coreano simpático, dono do “Hong”, que era um restaurante não tão simpático assim mas tudo bem, disse que tava tudo bem, nem muito cheio, nem muito vazio.
- Pão com ovo Tristan?
- Não...hoje não, tava pensando em arroz com feijão mesmo
- Oi Tristan!
- Quem é a senhorita?
- Quer mesmo saber?
- Não sei.
-Posso me sentar?
Ela era loura, magra, muito magra, e se vestia com muito mau gosto, roupas estranhas da moda, coisas coloridas, mal combinadas e assimétricas. Minha mãe com seus cinqüenta e pedrada usando camiseta branca e jeans era mais elegante que aquilo ali. O que me deixa espantado é o mau gosto de algumas mulheres e da maioria dos estilistas. Os cabelos eram bem cuidados, a pele e tudo mais, não parecia nenhuma das loucas com quem eu tinha me metido até então. Muito bem cuidadinha ela.
- Você faz muita questão?
- Você não faria?
- Tudo bem, você também gosta de usar perguntas como respostas... apesar de loura aprende rápido...
- Posso aprender outras coisas...
- Quem foi que mandou você aqui? Olha, eu sinto muito mas não posso te pagar minha filha... eu só tenho pro meu almoço hoje mas se o serviço for de graça eu topo.
- Eu não sou prostituta...
- Então é de graça?
- Eu não vim aqui pra isso.
Eu estava verdadeiramente intrigado, quem era a moça, porque uma moça tão daquele jeito viria falar comigo, logo comigo, eu fico indisposto no almoço. A mulherzinha ficou ali, um palitinho na cadeira. Deu pena até. “Ora Tristan!!! Pena dessas loucas!!! Nunca!!! Só te fodem a vida essas loucas”.
Deu vontade de dar comida pra ela...mas não acho que ela sentisse falta... podia vomitar tudo no meu pé. Eu estava sendo preconceituoso. Era essa a verdade. Mas é estranho uma senhorita tão bem cuidada aparecer na minha mesa. Odeio pessoas que me abordam do nada, e pior... citam meu nome. Comer sozinho é horrível, mas é pior quando a companhia é desconhecida.
O Hong trouxe meu prato. Um belo P.F., aquela porção de arroz com feijão fumegante, um grande e suculento bife, e douradas batatas fritas, o P.F. do Hong era disparado o melhor do velho centro. Ela olhou pras batatas e foi com aquela mão cheia de unhas feitas e pintadas com florzinhas desenhadas na minhas batata frita e dourada.
Isso é morte. Não se põe a mão nas batatas fritas de ninguém sem ordem. Visto que eu odeio que olhem pro meu prato por a mão nele é crime inafiançável dentro dos meus parâmetros de justiça. Ela pegou minha batata e pois naquela boca cheia de batom vermelho cereja.
- Merda!!! Você é uma loura louca! Você ousou por a mão no meu prato!! Nas minhas batatas!! Isso é o que eu chamo de insanidade! Nunca!!! Nunca se põe as mão no prato de um bom homem!!!!!
O Hong olhou pra ela com desaprovação.
- Calma guri! Credo, só uma batata. Pago outra se você quiser.
- Não! Essas foram douradas em minha homenagem, é o meu prato. Escute, não sei quem são seus país, nem quem é você, mas sei que você é limpinha e mal educada o suficiente pra importunar o almoço de um simples ser humano.
- Hei você, chinês...
- Ele é coreano PORRA!!!!
- Tanto faz, faça mais batatas pro nervosinho aqui.
- Não quero mais batatas! Você vai ficar gorda e bisonha de tanto comer aquelas batatas!! E tomara que as suas tetas caiam!!!
Sai dali, fui comprar uma cerveja ou encontrar o Joca pra tomar uma cerveja. Era urgente. Levantei .Ela veio atrás de mim dizendo coisas do tipo:
Eu preciso de votos pra ser a nova modelo do sei lá o que... eu não queria ouvir. Odeio modelos, mulheres sem um mínimo percentual de carne. Sacos de ossos sobre passarelas. Gostaria de saber, onde ficam as carnes e a inteligência dessas pessoas. Ela continuou atrás de mim dizendo que só faltava um voto pra não sei o que, que o seu Odislau mandou-a me procurar. Encontrei a Lílian, minha digníssima e rechonchuda cunhada.
- Li!!!! Socorro, tem um protótipo de Paris Hilton, estranha e atroz atrás de mim. Ela quer ser sei lá o que e eu não quero olhar pra ela!!!
- Calma Tristan!! Desde quando mulheres te assustam?
- Mulheres não me assustam, falando nisso como anda sua vizinha masoquista?
- Ora rapaz!!!
- Mulheres não me assustam, sacos de ossos com silicones sobresalientes, uma potencial ganância por aparência e ladras de batatas sim!!!
-Tudo bem. Pois não moça?
- Olha, eu preciso do voto de mais um homem pra poder ser capa do calendário da oficina ao lado, será que seu filho pode me ajudar?
A Lílian era uma pessoa maravilhosa... mas a coisinha ter me confundido como filho da Li foi maldade. Aí o pau quebrou bonito. Achei que a Li ia partir a coisinha no meio mas o seu Odislau, dono da oficina segurou, por mim poderia ter quebrado até em quatro. Eu saí fininho e fui encontrar meu fiel escudeiro no Milk’s, tinha em mãos alguns contos estranhos com os quais só o Joca poderia se meter.
- Eu sabia Tristan, o Previsível!!!
- Claro que você sabia, ó peculiar amigo.
- E então, aconteceu algo de novo nesse meio tempo?
- Uma mulher muito estranha pegou as batatas do meu prato.
- As pessoas de hoje não tem educação! Nunca se pega batatas sem ordem!!
- Nunca.

28 Setembro 2007

parte II

- Você é quem cria tudo isso!!! Você cria esses monstros todos na nossa história!
De novo eu não queria responder, nem falar, nem concordar, nem nada. Eu já não queria mais nada. A única coisa que eu queria era esquecer. Eu estava cansado e queria esquecer de tudo.
- Você não vai falar nada? Não seja covarde Tristan, você sempre faz isso, não é? Você incita brigas e depois nem sabe mais porque! Eu vou embora.
Eu abri a porta, continuei calado, e sabia porque. Ela foi embora. Eu pensei que realmente eu fui covarde. Mas sabia porque. Porque cansei de pensar nela e não em mim, cansei de esperar por ela e ela me dizer que não vinha mais, cansei de acreditar, falar, de me entristecer, de me decepcionar nas segundas de manhã... às vezes a vontade vai se perdendo juntamente com o encanto e vice e versa... eu não sabia o que fazer comigo, eu queria que ela ficasse. Eu e meus restolhos, meus tantos eus, ficamos sentindo o perfume dela por algum tempo, e pensei que talvez eu pudesse ligar, chamar... mas não é o meu estilo. Não gosto de obrigar as pessoas a ficarem comigo, se ela não se sentia agradável do meu lado eu já não podia fazer mais nada. Pensei nas outras, que me feriram, que eu feri, nas tantas outras que passaram e eu esqueci, tanto esqueci que já nem lembro alguns nomes, fisionomias...eu as esqueci e elas se fizeram esquecer... mas ela, eu não queria não lembrar... eu não sabia mais.Pensei também em ir embora, assim é sempre mais fácil esquecer... no fim, eu acho que é só esquecer...
O telefone tocou...
- Tristan? Tudo bem com você?
- Sim.
- A gente pode conversar?
- Você quer me conquistar de novo?
- Não Tristan, dessa vez é só uma conversa.
Eu desliguei o telefone. Se ela não sabe brincar, eu também não.