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Nota do Homem Ensopado e Rachado ao Meio

Aquela semana choveu, choveu tudo e mais um pouquinho. Ela chovia também, um pouco. Mas a chuva ainda era mais bela. - Quer carona no meu guarda chuva? - Não obrigada, eu trouxe o meu. - Hum, tá. Posso te acompanhar? - Como queira Tristan. - Queria andar de braços enganchados com você. Como as pessoas de antigamente. Acreditei, naquele exato momento, que ela acharia deveras singelo o meu convite comentário. Apesar da chuva torrencial nos ensopando, mesmo estando de guarda chuva, eu estava achando bonito. Eu que de tão tristonho quase nunca acho nada mais bonito que a própria tristeza, estava achando a chuva de uma singeleza incomparável. - Tristan, eu não tenho tempo nem coração pra morrer de amor e ficar me molhando com um estúpido na chuva. Voltei pra casa rachado ao meio, sem nem cacos pra juntar. Ora essa, como assim não tem coração?! E quem falou de morrer de amor?! Nunca mais tento ser amável com essas mulheres modernamente mal educadas.

Momento Eterno

Po ouvi essa poesia musicada do Yan Lemos, pensei nela como uma bela tempestade. Perdi-me ao som do rompimento aos olhos do fiél fui claro e sempre taciturno porém amei você que isola o sentimento em falta em sonho irreal cresci mil anos em dez dias tão cinzas quanto as sobras de meu som Estranho é constatar o óbvio lógica banal me dá conforto e calafrios sentir a solidão o corpo enxarca-se de métricas homéricas e vis queria só mais um momento eterno com você Desistir jamais persistir, quem sabe? o vento que me traz é mesmo que me sopra pra longe dos seus ais pra longe deste inverno no céu não vou entrar a rua é o destino dos que amam e se fodem no final um verso em pleno ar que emana sinais de dor eu busco saber driblar e de frente pro sol conseguir sonhar Até amanhã, entre depois de amanhã busca razões e desmonta o cerco envolto num só deus brilha entre o raso e o deserto palpiteia o desespero e invade a pretensão ontem eu me olhei no espelho ...

O Bêbado e as Pernas

Errara a mira. Limpou seu vômito na porcelana. A bebida que outrora o fez alegre e manso agora fazia mal e o enjoava. Tomado pelo atordoamento pensou em por o dedo na goela e se desalmar por um breve instante. Quisera a alma fugir daquele corpo sôfrego e bêbado. Os pés e as pernas respingados da alma saída e mal mirada lhe envergonhavam. Mas que tinha a maldita sociedade com isso? Perguntas sem respostas coesas eram seu forte. Os fortes agüentariam até o amanhecer. Mas e ele que não era forte? No seu mundo ciranda, caído na cama pensava nas calças vomitadas jogadas na lavanderia, em quantas palavras a menos poderia usar se achasse as palavras certas e nas moças com pernas exuberantes pelas quais passara um pouco antes de se desalmar. Mas que era ele? Perdedor até pra beber? Até assim, pra isso seria fraco? Tinha algo nos seus pensamentos que o preenchiam. Nem seus vícios mais cretinos arcavam com o ardor do sentimento pulsando nas veias e querendo ser sentido, explorado. No fim das con...
Fazia frio. Meus dedos congelados queriam, junto com meu doido cérebro, que eu fosse até o posto comprar cigarro, talvez eu me adiante na história e vá e volte para contar desse frio que me deixa aflito, mas independente disso, curioso eu fui me buscar. Tremendo como um cão perdido na rua olhei para os lados e nem um bastãozinho...vício desgraçado. E o que seria de nós sem vícios? Bem, vocês eu não sei, mas eu... A humanidade fica criando essas coisas pra gente ficar se entretendo e depois vira escravo. Eu não sabia exatamente o que era, vontade de fumar ou de sair. Ou de ficar. Ou arrastar os móveis. Quem sabe ler um livro. Desgraça de espírito inquieto, coisa mais sem paz eu sou. Deus do céu!!! Ajuda-me a fugir de mim, se eu me pego o estrago vai ser grande. Ninguém ligou e eu fiquei, naquele frio mórbido, sabendo que mais cedo ou mais tarde teria que sair, e fumar, e beber, e mais algo fora do meu discernimento. Tinha tudo pra mim, menos paz, e onde vive essa louca dessa paz que eu ...

O Gentil Joca

Eu fiquei toda aquela tarde me remoendo por dentro, com aquela mãe das angustias... Era chato falar da dor, é vergonhoso sofrer porque o mundo é uma merda, nessa horas, eu, digníssimo Tristan, gostaria de mudar o mundo, porém todas as pessoas têm vergonha de si, e supostamente de mim. Eu, que não tenho vergonha de chorar, não tenho medo de andar sozinho à noite, nem de me destruir todinho pra me refazer todas as manhãs... bebi. Sóbreo é difícil se convencer e sofrer. - Ó fiel escudeiro! - Ó maldito e triste Tristão!!! Claro que o encontraria no Milk's, onde mais encontraria meu caro e bêbado amigo? Posto que o Joca se encontrava lá desde às dez e meia da manhã, e posto que ele ficava profundamente triste nos domingos, já estava completamente cozido, cozidinho. - Estou com a mãe das angustias... não sei se bebo mais ou se faço uma revolução, o problema é que nós estranhos não somos levados a sério, você já sofreu porque o mundo é mundo? - Todos os dias, eu trabalho de segunda ...

O Digníssimo "João"

O Digníssimo “João” Aqueles lábios carnudos. Eu sem saber o que dizer. - E então, como você está? - Acho muita gentileza sua perguntar... não sei se convém responder. Não havia nada pra responder, eu não sabia como eu estava. Eu não sabia quem eu era, algumas coisas pegam a gente pelo pé e tudo começa a ruir. As paredes da minha casa estavam pintadas agora e o ambiente parecia alegre fora o dono mórbido ali dentro. - Tudo bem, eu entendi que você não quer responder. Eu só passei pegar minhas coisas. - Leve-as... são suas mesmo. - Você não vai mudar nunca não é? - É, Tristan o bravio será sempre o mesmo. - Então acho que você sabe porque eu estou indo embora. Acendi o cigarro mais gostoso da minha vida. Eu sabia, não entendia mas sabia. Preferia que ela fosse, afinal de contas nem morava aqui. - Você nunca ficou de verdade, não tem como ir embora de verdade, ta indo embora de mim, não da minha casa. Da minha casa só eu posso ir embora. - Não vou tentar mudar ...

O pianista

Eram memórias muito claras... eu o sentia no piano. Aquela sala vazia, a Balade No. 1 de Chopin. Eu estava na janela olhando pra rua. A fumaça ia se misturando. Cada nota, cada tecla. Ele tocava sempre como se fosse a primeira e a última vez. Olhava e não podia chegar perto. Um sonho em que não se pode tocar nada. Sente-se. Vez em quanto eu olhava. As costas e a mão indo e vindo em um bocado de oitavas. Correndo em um bocado de oitavas. E de repente alegre. De repente triste, violento, calmo e às vezes nada. O que podia não ser, o que podia ter sido. Os velhos e confusos pensamentos e eu sem poder chegar perto, a música cada vez mais rápida, cheia de uma expressão rompante e magnífica. Cada tecla. Eu acordava sem pensar no que era vivo mas na vida que tinha. No sentimento que tinha. Natural. Sentir é natural. Sentir tão longe. Tanto tempo. O tempo nem é tempo. Eu mentia o tempo pra poder chegar mais perto. O sonho ia se desfazendo com o tempo, a fumaça, e uma coisa sem nenhuma dor,...
No Almoço Eu estava lá, sentado, esperando alguma coisa acontecer. Havia duas horas que eu estava lá sentado esperando algo acontecer e o Joca me ligou. - Alô. - Ó Tristan!! Salve salve ser humano!! Como vai? Vamos beber hoje? - Não. - Como não? Aposto minhas calças que você estava aí, sentado no seu sofazinho florido olhando pra porta esperando algo acontecer. - Eu devo ser muito previsível então. - Claro que é, só foi imprevisível ao negar meu convite... ou não...você sempre nega primeiro e depois muda de idéia. Combinado então!! No Milk’s ás sete e alguma coisa. - Você não quer almoçar comigo? - Tristan, você é o cara mais carente no almoço que eu já vi... O Joca desligou o telefone sem nem saber se eu havia concordado ou não, o que era típico dele posto que no fim das contas eu sempre ia e também não aceitou meu convite pra almoçar. É simplesmente horrível almoçar sozinho. Posso ficar só o dia todo...mas no almoço, é muito cruel. Eu fui tomar um banho, tirar o cheiro de cerveja ...

parte II

- Você é quem cria tudo isso!!! Você cria esses monstros todos na nossa história! De novo eu não queria responder, nem falar, nem concordar, nem nada. Eu já não queria mais nada. A única coisa que eu queria era esquecer. Eu estava cansado e queria esquecer de tudo. - Você não vai falar nada? Não seja covarde Tristan, você sempre faz isso, não é? Você incita brigas e depois nem sabe mais porque! Eu vou embora. Eu abri a porta, continuei calado, e sabia porque. Ela foi embora. Eu pensei que realmente eu fui covarde. Mas sabia porque. Porque cansei de pensar nela e não em mim, cansei de esperar por ela e ela me dizer que não vinha mais, cansei de acreditar, falar, de me entristecer, de me decepcionar nas segundas de manhã... às vezes a vontade vai se perdendo juntamente com o encanto e vice e versa... eu não sabia o que fazer comigo, eu queria que ela ficasse. Eu e meus restolhos, meus tantos eus, ficamos sentindo o perfume dela por algum tempo, e pensei que talvez eu pudesse ligar, ch...
E era aquela velha histórinha que ele me dizia... "Você sempre acha que tem razão..." - Se eu acho que tenho razão talvez seja porque eu tenho razão. - Ou não, talvez Tristan, você seja um louco cabeça dura. E ai? Vamos lá ver o pessoal fazer um som? - Não. -Por que? - To fora dessa. Acho que quero ficar sozinho. Preciso muito de mim. - Olha lá hein... não vai ficar se acabando na punheta. - Acho que não. Eu fiquei um tempo no sofá depois que o Joca saiu. Eu me dividi em mil eus, até me achar em cada pedaço. E era assim toda vez que eu achava que estava só. Ia me procurar, e me achava, e cada pedaço era um outro eu e era tão eu como nunca. Alguns meus pedaços eram brilhantes pedaços de espelho no chão. O espelho quebrado a duas semanas ainda estava no chão e eu restolhado nele. O que você pensa quando tem que se libertar? Não pensa, senão não é livre... o pensamento é uma prisão terrível, se pensa não faz, se fizer não pense. E o que se faz quando quer esquecer? Não pensa? Es...

Desacordo

- Nem vem pro meu lado porra!!!! Sem essa de me segurar!!!! - Calma Joca, você ta nervoso. - O que você sabe sobre estar nervoso? Você vai ver o que é nervoso cara!!! Vou mandar uma bala na minha boca, vou encher esse lugar de sangue!!!! AGORA!!!!! Então nós rolamos e não tinha certeza nenhuma de quem ou o que tinha encontrado a tal bala... foi um momento bem incerto daqueles que de repente acontecem e ninguém viu, ninguém lembra e só serve pra comentar bêbado e rir. O imbecil suicida que estava na minha frente jazia no sofá, os olhos esbugalhados, antes tivesse se acertado mesmo, pensei que foi uma puta de uma besteira ter impedido aquele demente mas sendo eu um ser humano um tanto apático eu não queria me esforçar e ter que achar outro amigo tão dado a extremos. - Você é um grande imbecil, demente e filho de uma puta!!!!! E se eu tivesse me acertado?!!! Seu grande merda!!! Bosta!!! Caralho!!! - Cala essa boca Tristan!!! Agora eu vou te matar e me matar depois!!! - Você é ...

Desabafo

Eu falo muito, mas tem coisas que eu não sei dizer. Nem escrever às vezes. Tem certas palavras que inevitavelmente se fazem escrever, outras me fazem oscilar e destroçado o racional eu procuro sem ver. Eu não vejo o poste, os carros, só o vento nos cabelos... rua abaixo predomina a respiração e a decomposição dos meus sentidos. Eu, rua abaixo não sinto o Sol, submerso na cinza, sou tragado a cada sentimento, impossibilidade, pensamento, prisão... Apesar de desconcertada a liberdade passa risonha, voando sob minha cabeça abraçada a uma bola de canhão. A minha cabeça emergida de um peito cujo chão exaurido faz sentir o contrato da saudade com a dor. Ah! Mas eu? Eu nada! Nem tão pouco tudo isso, pois tudo isso são palavras. Eu sou só uma dor, andando sórdido e lento. Entorpecido pelo tempo venho medido pelo passado. Eu, cortado fundo, amado ralo... Eu nem nada, nem sopro, nem poesia, nem palavra.

É Pra Bater Porra!!!

A Dona ali do apartamento em frente ao do Fausto era uma dona com curvas, muitas curvas... e eram todas bem feitas. Uma pêra bonita, vistosa, vistosíssima. - Fala a verdade Fausto... Porque você deixou essa Dona da frente sem as suas digitais? - Ela é conhecida da minha mulher Tristan cabeça oca... trocam receitas e coisinhas, enfim... sabe como é, eu posso procurar coisas mais discretas e distantes por aí. - É mas pelo jeito só a Leila é que tem feito as receitas, você devia costurar a boca da sua mulher. - Viu só amor!!! O Tristan também acha que você tá gorda!!! Ouvimos apenas um foda-se vindo da cozinha junto com o cheiro de gordura. - Alguém quer pastel? - O amor... você não tá gorda não, viu? O pastel tá uma delícia! - A receita é da vizinha, ai ela é um amorzinho. Eu estou com um pote dela. Tristan, você não me faria esse favorzinho quando estivesse indo embora? - Levar pra dona com corpo de pêra ali da frente? - Sim. Notei um certo nojo, ou sei lá o que no sim da Leila. Uma coi...

Perdido

Carolina...eu vi, eu vi e não quis nem falar, nem chorar, nem mover uma palha e nem te dei um sorriso. Ouvi o sabiá. Não lhe sorri também. Rias tu e ele cantava. Quero que cortem tua boca voluptuosa fora, e que teus cabelos negros e brilhantes caiam todos, quero que emudeçam a tua voz que derreteu meu coração, quero que te cortem o seio, a púbis... Quanto egoísmo da tua parte Carolina! Posto que felicidade é um egoísmo a tua felicidade sem mim é só minha amarga tristeza, o meu ocre não ser... O sabiá cantava meu canto mudo... A proximidade que ele esteve de ti me causa inveja, o teu riso sem mim causa-me dor. Carolina, depois que tu perdeu-te de mim... depois que eu te perdi ... perco-te todas as noites e todas as manhãs, e em todos os sonhos...mas a dor é a mesma.

Triste...Tristan...Tristão

Foi a primeira coisa... pensei em me encerrar... só isso. Encerrar pode não parecer uma boa palavra... mas é melhor que nada. Eu não fazia sentido, bem como minha dor e vazio também não. Mas minha dor e meu vazio eram tão meus e tão eu que pra fazer toda essa coisa parar era só os encerrando, encerrando-me. É isso que se faz com uma coisa oca... encerra-se a coisa. Ou liberta-se a coisa. Independente de ser coragem ou covardia era o que parecia mais sensato dentro de um confuso...no entanto eu não tinha nem coragem suficiente e nem covardia suficiente. "Mas não chora não... a tua dor é só tua." Esta noite acordei no escuro e abri meus olhos cheios d'agua e então eu vi a escuridão molhada nos meus olhos. O tempo comia a noite devagar e eu não aguentava mais ficar acordado, o tempo comia tudo devargar, sem pressa nenhuma, porque é dono de si. Só havia tristeza, e tristeza nem o maior amor do mundo compartilha. Tristeza se senta e sente. E se sente sozinho, oco. E se sen...

Eu e Buckowski

Quase que passei absorto pela livraria, mas entrei. O meu preciosíssimo estava lá! “Bukowski”. Entrei, perguntei o preço. Independente de quanto fosse eu só tinha 0,20 centavos. Livros são caros. Mas o do meu amado Buckowski não era tão fora dos meus olhares. A atendente disse que eu podia sentar numas cadeiras, ao lado do café, e ler o livro. Sentei e li, e ri, concordei, coloquei a mão na boca (sabe como?), e quis quebrar coisas, quis ser um desgraçado, foder, tomar uma cerveja, um cigarro, ri de novo...E fiquei satisfeito o dia todo. O dia todinho! No dia seguinte tomei um porre sozinho, risonho e satisfeito, e não consegui escrever.

O que dizem os campos elétricos

Pela manhã ouvi o que disseram os campos elétricos ao meu redor... Saltei ruas e não entendi o concreto apaguei pontos e pingos... rasurei desmensuravelmente as constituições... leis voaram pelo espaço e ficamos à merce das asas da justiça Comi papéis e suas letras nada mais constataram virei mesas de cabeça para baixo e já não eram mais mesas... eram pernas presas... Não! E eu direi não! Direi não milhões de vezes a essa hipocrisia que faz bico e não conhece a vida! Digo não a cultura burguesa que compra títulos e não conteúdos! Digo não a moral com suas constituições, leis, letras e mesas! Digo não aos que não experimentam as ruas frias e os corações bêbados E aos que se julgam superiores... Apenas digo: Pela manhã ouvi o que disseram os campos elétricos ao meu redor... " O normal é o desarranjo. "

Nem Um Segundo Mais Feliz

Às vezes, quando estou por aí, fico pensando... caminho bastante. Andando e pensando. Andando e cagando pensamentos inúteis e apavorados, como eu. Andando e cagando milhões de pensamentos pela rua. Quando eu estou muito livre eu fico feliz. E quando eu estou muito à vontade e feliz... meus pensamentos se derretem e ficam por aí avoados e doidos, descompassados e lentos, como eu, confuso. “Quando fico cheio de felicidade me sinto vazio e entediado”. A solidão é um ente muito agradável na minha opinião. Não é comparável com minhas sempre boas companhias porque é uma descompanhia. E é quando ando invisível por aí que percebo o que dizem as correntes elétricas que passam pelos postes... é quando ando invisível por aí que percebo o quão necessário é se fazer invisível pra ver... Eu desejaria algo estraçalhador agora, ou uma cerveja e um cigarro. Mas nem um segundo mais feliz.

Boa Vizinhança

Saí comprar uma cerveja e cigarros. Comprei cerveja, cigarros e biscoitos de aveia e mel. Era tudo que meu dinheiro poderia me proporcionar aquele dia. Entrei em casa tirei os sapatos e a camisa. Acendi o cigarro e abri a cerveja. Liguei o som. Toc toc. Abri a porta, era a vizinha. - Olá! Você é o Tristan? - Sou? - É? - É. Sou. - Você poderia abaixar o som? - Claro. Em seguida pus o som no chão. - Satisfeita? - Acho que você entendeu o que eu quis dizer. - Olha, eu não quero parecer hostil, mas diminuir o volume é uma coisa, baixar o som é outra. - Você não parece hostil, só cínico. Por favor, se você pudesse diminuir o volume. - Não posso. - Porque não? - Por que é Beethoven. O CD tinha várias músicas, terminou Beethoven e começou Ten Years After... - Agora suponho que você possa abaixar o som... - Tão pouco. Porque você está insistindo? Se eu tivesse mais uma cerveja lhe convidaria pra ouvir comigo, mas se você quiser dividir essa cerveja e ouvir comigo seria um prazer. - Eu não bebo...

Ô Diva! Assim você me mata!

“Eu não posso ficar olhando, não posso ficar olhando...” Mas aquelas coxas, aquelas curvas, tudo aquilo se movendo languidamente bem em cima de mim... Como diabos eu não vou olhar!!! “Tristan, não ouça o canto da sereia Tristan!!! “Hum... ahm... ah, ah... - Vem Sereia!!! - Abre o olho Tristan...hahahahahhaha - Não posso. - Porque?! - Não, não, não Diva, não sai daí não. Juro que não é pessoal. Abri os olhos, claro que eu abriria os olhos! E claro que eu ouviria o canto da sereia. - Geme no meu ouvido, vai Diva. Sobre a Diva? Ora! A Diva era minha bonequinha de luxo. Na verdade a Diva era uma prostituta de luxo. O que muitos homens pagavam, e caro, pra ter eu tinha de graça. Além de tudo isso, quando eu ficava na merda a Diva sempre me trazia umas palavras cruzadas, cerveja e café. Ás vezes carne. - Porque você ficou um tempão com os olhos fechados? - É o seguinte Diva, quando a gente fica olhando muito, a cabeça guarda. O que a cabeça guarda ela lembra, e a lembrança de uma cabeça pode...