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Desabafo


Eu falo muito,
mas tem coisas que eu não sei dizer.
Nem escrever às vezes.
Tem certas palavras que inevitavelmente se fazem escrever,
outras me fazem oscilar e
destroçado o racional eu procuro sem ver.
Eu não vejo o poste,
os carros,
só o vento nos cabelos...
rua abaixo predomina a respiração e
a decomposição dos meus sentidos.
Eu, rua abaixo não sinto o Sol,
submerso na cinza,
sou tragado a cada sentimento,
impossibilidade,
pensamento,
prisão...
Apesar de desconcertada a liberdade passa risonha,
voando sob minha cabeça abraçada a uma bola de canhão.
A minha cabeça emergida de um peito
cujo chão exaurido
faz sentir o contrato da saudade com a dor.
Ah! Mas eu? Eu nada!
Nem tão pouco tudo isso,
pois tudo isso são palavras.
Eu sou só uma dor,
andando sórdido e lento.
Entorpecido pelo tempo
venho medido pelo passado.
Eu, cortado fundo,
amado ralo...
Eu nem nada,
nem sopro,
nem poesia,
nem palavra.

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Nota do Homem Ensopado e Rachado ao Meio

Aquela semana choveu, choveu tudo e mais um pouquinho. Ela chovia também, um pouco. Mas a chuva ainda era mais bela. - Quer carona no meu guarda chuva? - Não obrigada, eu trouxe o meu. - Hum, tá. Posso te acompanhar? - Como queira Tristan. - Queria andar de braços enganchados com você. Como as pessoas de antigamente. Acreditei, naquele exato momento, que ela acharia deveras singelo o meu convite comentário. Apesar da chuva torrencial nos ensopando, mesmo estando de guarda chuva, eu estava achando bonito. Eu que de tão tristonho quase nunca acho nada mais bonito que a própria tristeza, estava achando a chuva de uma singeleza incomparável. - Tristan, eu não tenho tempo nem coração pra morrer de amor e ficar me molhando com um estúpido na chuva. Voltei pra casa rachado ao meio, sem nem cacos pra juntar. Ora essa, como assim não tem coração?! E quem falou de morrer de amor?! Nunca mais tento ser amável com essas mulheres modernamente mal educadas.
Naquela noite Tristan, o triste, estava boquiaberto. Seu semblante sério, e dolorido... Senhor Deus dos desgraçados! Doía ver aquela aquele rosto triste!  - O que te abate belo Tristan? - Não sei o que dizer...  Entendi que era não só sério, porém de alta gravidade. Aquele sujeito, que tanto fala, e tanta coisa (a maioria sem sentido para os comuns), calava-se agora numa tristeza incomum, até para ele. - O que houve? - É terrível... - Caceta homem! Achei que não defecaria pela boca tão cedo novamente! Não fui assertiva no comentário... Eu era um cavalo, sem tato, sem jeito... Às vezes (raras vezes) me vinha à mente a palavra certa, mas quando as dizia sentia que essa tal história de palavras certas é sempre relativa. A tristeza incomum dele tornou-se algo maior, mais dolorido frente a minha chacota, e o que antes considerei grave, como é grave para uma criança perder numa brincadeira tola... Era de fato o que parecia, uma grave e profunda dor. - Desculpe Tristan... Eu....
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