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Boa Vizinhança


Saí comprar uma cerveja e cigarros. Comprei cerveja, cigarros e biscoitos de aveia e mel. Era tudo que meu dinheiro poderia me proporcionar aquele dia. Entrei em casa tirei os sapatos e a camisa. Acendi o cigarro e abri a cerveja. Liguei o som. Toc toc. Abri a porta, era a vizinha.
- Olá! Você é o Tristan?
- Sou?
- É?
- É. Sou.
- Você poderia abaixar o som?
- Claro.
Em seguida pus o som no chão.
- Satisfeita?
- Acho que você entendeu o que eu quis dizer.
- Olha, eu não quero parecer hostil, mas diminuir o volume é uma coisa, baixar o som é outra.
- Você não parece hostil, só cínico. Por favor, se você pudesse diminuir o volume.
- Não posso.
- Porque não?
- Por que é Beethoven.
O CD tinha várias músicas, terminou Beethoven e começou Ten Years After...
- Agora suponho que você possa abaixar o som...
- Tão pouco. Porque você está insistindo? Se eu tivesse mais uma cerveja lhe convidaria pra ouvir comigo, mas se você quiser dividir essa cerveja e ouvir comigo seria um prazer.
- Eu não bebo.
- Porque?
- Por que não gosto.
- Não quer entrar, ouvir um som e discutir sobre isso?
- Não.
- Então eu não posso diminuir o volume. E ainda não passou das 22:00. Eu tenho mais 30 minutos de prazer auditivo e suponho que se você não puder me dar nenhum outro prazer em troca eu não posso ajudá-la. Além do que estou me preparando pra ouvir Jobim... gosta?
- Não.
- Porra! Você não gosta de nada?
- Eu gosto de silêncio.
- Meu poder de persuasão não vai funcionar de forma nenhuma?
- De forma nenhuma.
- Então eu vou ficar com meus trinta minutos de prazer auditivo. Lamento.
Fechei a porta, matei a cerveja e ouvi Jobim, Toquinho, Chopin e dormi sujo e risonho.

Comentários

Anônimo disse…
eh isso mesmo
Wilton Isquierdo disse…
haha

é bonito.

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